terça-feira, 29 de março de 2011

Somos seres faltosos!

Segundo Rodrigues (2008), citando Bauman (1999), diz que “o desejo não deseja satisfação. Ao contrário, o desejo deseja o desejo. Isso porque o desejo nos dá a sensação de ‘vida’”.
Viviane Mosé, à luz das idéias de Nietzsche, diz que a base da civilização ocidental é a negação do sofrimento, da dor. Porém eliminar o sofrimento é eliminar o impulso para crescermos, para amadurecermos. Ao perder alguma coisa você ganha o impulso de construir algo. A vida se move a partir de ganho e perda. Se você tirar a perda, você tirará o homem do devir, da transformação.
Cada um de nós conhece exemplos de pessoas que são vencedoras, lutadoras. Mas que para isso, precisaram passar por dores e perdas. Nós mesmos somos esses vencedores!
Fico pensando como seria chato se tivéssemos tudo o que sonhamos e/ou queremos. (Um sonho normal na nossa infância). Imagino aquele menino pobre, que não teve muita chance na vida, mas que se agarrou a chance dos estudos. Com isso conseguiu ingressar numa universidade federal, consegui uma bolsa de estágio, conseguiu participar de um projeto na faculdade. Bendita falta que fez ele sair de si! Doeu, mas ele cresceu. E mais, não se deixou levar pela dor ou pela falta. As palavras de Nasio (2007) ilustra bem isso: “... equivale a declarar que ao longo da nossa existência estaremos, felizmente, em estado de carência, vazio sempre futuro que atiça o desejo, é sinônimo de vida”.
Lembro-me também que quanto aos relacionamentos humanos, às vezes escuto frases do tipo: “Quero alguém que me complete”. Sinto frustrar o(a) dono(a) dessa frase, pois se somos seres faltosos, nós nunca seremos completados, ninguém nos completará. Acredito que a frase ficará melhor redita da seguinte forma: “Quero alguém que me complemente”. E recorro novamente a Nasio (2007) que dia: “porque habitualmente atribuímos ao nosso parceiro o poder da satisfazer os nossos desejos e nos dar prazer. Vivemos na ilusão, em parte verificada, de que ele nos dá mais do que nos priva”.
Por isso, não esqueçamos que incompletos, faltosos sempre seremos. Mas esse ato – involuntário ou não, inconsciente ou não – de negar a dor, a perda é algo comum da nossa cultura ocidental.

terça-feira, 15 de março de 2011

Fim do amor: decepção com o outro ou comigo mesmo? (Parte 2)

Na verdade, gostaria de escrever sobre outro assunto. No entanto, ao reler o post anterior, percebi não ter conseguido expressar o que realmente queria. Pois me “perdi” no meio do caminho e fugi um pouco do tema. Sendo assim, resolvi retomar o tema.
Se amamos um ser misturado, (Amamos a pessoa pelo que ela é, por aquela pessoa com quem convivemos, mas também amamos pela fantasia inconsciente que fazemos e temos dessa pessoa) então a dor da separação, do fim do amor é a dor de separar-se da fantasia que me unia ao outro. Pois segundo Nasio (2007), “a existência fantasiada do outro é mais importante do que a existência exterior”. Sendo assim, a separação é uma dor “egoísta”, pois perdemos uma parte de nós, uma parte do outro, mas que é fantasiada por mim e que me constituía. E Nasio (2007) ainda dirá: “o que dói não é perder o ser amado, mas continuar a amá-lo mais do que nunca, mesmo sabendo-o irremediavelmente perdido”. E esse amor ao objeto perdido, é uma defesa do “eu” a perda real do amado, por isso o “eu” atrela-se à imagem do objeto perdido.
E se imaginamos o amado segundo nossos afetos e valores, perder esse amado é perder uma parte de nós. Então, perder o amado é uma decepção comigo mesmo. Pois Nasio (2007) dirá corroborando tudo isso: “o eleito é, antes de tudo, uma fantasia que nos habita (...) objetos das nossas projeções imaginárias”.
E para arrematar, o mesmo autor diz: “Não é a ausência do outro que dói, são os efeitos em mim dessa ausência. (...) Sofro porque a força do meu desejo fica privada de uma de suas fontes, que era o corpo do amado”.
Por que falar nisso tudo? Ora se é “Falando que a gente se entende”, muito justo falar sobre perdas de amor. Amor que pode ser de amigo, de irmão, de namoro, de homem, de mulher, de trabalho, de estudo. Enfim, todos nós sofremos perdas e precisamos pensar melhor sobre elas, sobre as dores que elas nos causam. E, assim, elaborar melhor nossos lutos. Pois, “Falando a gente se entende”.
13/03/2011
Fonte: Livro A dor de amar - J.D. Nasio, Ed.Zahar, 2007.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Fim do amor: decepção com o outro ou comigo mesmo?

Você já parou para perceber que quando amamos alguém sempre amamos
um ser misturado? Sim, misturado. Amamos a pessoa pelo que ela é, por
aquela pessoa com quem convivemos, mas também amamos pela fantasia
inconsciente que fazemos e temos dessa pessoa. E aí, inconscientemente,
imaginamos o nosso amado segundo nossos valores inconscientes, nossos
desejos inconscientes. Mas eis que surge uma questão: quando fico chateado
com a pessoa amada, isso se deve porque ela fez algo “errado” ou porque ela
não correspondeu aos meus valores e desejos inconscientes?

Acredito que o que há de mais belo, rico no mundo é o relacionamento
humano, porém também é o que há de mais difícil. (Lembrei-me de Sartre ao
dizer que “o inferno são os outros”
.) É interessante notarmos que a pessoa
amada além de se relacionar com uma pessoa de gostos, história, ritmos de
vida diferentes tem que lidar com as fantasias desse outro que é imposta sobre
ela.

Não quero crucificar um lado da moeda apenas, pois a pessoa amada (como
ser humano que é) também ama a projeção dela em nós. Então, o que
devemos fazer? Eis a hora da palavra! A hora do “Falando a gente se
entende”.
Pois bem, uma possibilidade de solução nesse caso seria sermos
verdadeiros. Sim, verdadeiros! Assumir que estou com raiva do outro, mas
assumir que na verdade o motivo dessa raiva começa em mim que o fantasiei.
Eu que esperei demais dele, idealizei. Eis o mote crucial, queremos pessoas
reais para amar ou pessoas ideais? Sinto dizer-lhes, mas pessoal ideal só em
vaga de seleção de trabalho, mas fora isso, nos relacionamos com seres reais.
É interessante perceber que muitas pessoas ficam sozinhas em busca do
parceiro ideal e esquecem que o “ideal” pode ser aquele parceiro real que está
ao seu lado. (Isso não é enredo de comédia romântica de filme norte-
americano, mas uma verdade!). Porém, voltemos ao assunto de sermos
sinceros conosco. Um exemplo simples, talvez, nos ajude a entender a nossa
fantasia acerca do amado e da necessidade de sinceridade. Às vezes dizemos
que o outro está chato e por isso não queremos conversar. E o outro envereda
pelo caminho pessoal e a briga vira uma imensa bola de neve. Não seria mais
sensato se assumíssemos nossa verdade e mudássemos o tom do diálogo?
Por exemplo, “você, para mim, está parecendo que está aborrecido, um pouco
chato hoje, é verdade?”
. Convenhamos que isso é bem diferente de
dizermos “Você está chato hoje!” Ou, “eu não estou bem hoje, peguei um
trânsito infernal, briguei com o chefe e acho que estou chateado
”. Rogers já
falara sobre isso ao discorrer sobre a congruência, coerência. Ele dizia que
quando somos coerentes conosco, indubitavelmente nós levamos o outro a ser
coerente também, a abandonar as máscaras. Pois bem, sendo assim, nada
como sermos sinceros conosco e com o outro e sabermos que “Falando a
gente se entende”.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Falando a gente se entende.

Neste blog escreverei textos sobre psicologia, relacionamentos humanos, alegrias, dores, dúvidas etc., enfim, tudo o que toca a psicologia e ao homem. Até mesmo os assuntos mais “estranhos” como perversão, psicose, neurose. E a palavra estranho aparece aqui com aspas, à luz da célebre frase de Freud: “Nada do que é humano me é estranho”. O título “Falando a gente se entende” tem com premissa que a “cura se dá pela palavra”. Pois à medida que falamos, escrevemos, expomos nossas ideias estamos fazendo nossa catarse e dando espaço para a vida fluir no nosso interior, no nosso mundo psíquico.
Sobre o poder da catarse na cura de nossas doenças, citarei um trecho do que Breuer (Josef Breuer – médico e a quem Freud se referia como “o mais estimado dos amigos e o mais amado dos homens”.) fala a respeito da cura pela palavra:
Grande foi minha surpresa quando, em seguida a uma dessas verbalizações acidentais e espontâneas da hipnose da tarde, vi desaparecer pela primeira vez um distúrbio que durava muito tempo. Atravessávamos nesse verão um período canicular e a paciente sofria muito com o calor, súbito, sem que ela pudesse explicar, não conseguia mais beber nenhum líquido. Pegou na mão um copo de água com vontade de beber, mas, assim que o levou aos lábios repeliu-o, tal qual uma hidrofóbica. (...) Ao fim de aproximadamente seis semanas, pôs-se um belo dia a falar-me, durante a hipnose, de sua dama de companhia, uma inglesa de quem ela não gostava, e contou, com todos os sinais de repugnância, que, tendo entrado, em uma ocasião, no quarto dessa senhora, vira-a dando de beber, em um copo, a seu cãozinho, um animal horripilante. Por polidez, nada disse. Depois de ter energicamente expressado a cólera contida, pediu para beber engoliu sem dificuldade uma grande quantidade de água e saiu de seu estado hipnótico, com o copo na boca. Depois disso, o distúrbio desapareceu para sempre”.
Ressalto, aqui não farei hipnose com ninguém. Mas o trecho acima serve como enfatizador da nossa necessidade de falar, desabafar, externar, pois “Falando a gente se entende”.Tudo bem que quem mais falará aqui serei eu através dos textos postados. Sendo assim, a cura começará em mim primeiro, é verdade. No entanto, desejo que os textos sirvam de esclarecimentos, reflexões, indagações, questionamentos, trocas, partilhas. E, dessa forma, estarei aberto aos comentários e ao crescimento com as partilhas aqui ocorridas ou, partilhas começadas por esse meio, ou mesmo pelo meu e-mail lucafilho@hotmail.com.
Fonte: Revista Viver Mente e cérebro – coleção Memória da Psicanálise nº 1 – Freud – Editora Duetto, São Paulo, 2003.
09/03/2011