quinta-feira, 12 de maio de 2011

Conversa com um amigo no msn

“- Ontem quase que fui a um show sozinho.”
“- Sozinho? E seus amigos e namorado? – indaguei eu.
“- Estou solteiro, mas meus amigos decidiram ir para outro show. Mas eu escolhi ir só. Estou vivendo um momento de me descobrir, um momento só meu.”
“- Ah, ta!” – respondi eu.

Na verdade, eu respondi muito mais do que isso. A nossa conversa versou sobre algumas reflexões sobre ser verdadeiro consigo mesmo, assumir certos sentimentos e saber viver uma solidão fértil. Depois disso inventei de ver o filme Edith Piaf o que me fez acessar mais ainda meus sentimentos e uma enorme vontade de partilhar com vocês. E é sobre tudo isso que vou discorrer agora.
Sim, existem momentos de nossas vidas que queremos ficar a sós e fazer coisas sozinhas. Na verdade, não só queremos, mas também precisamos. E acredito que nossa vida – em certos momentos – clama, grita por esses momentos de solidão fértil.
Aquela solidão que nos faz acessar a nós mesmos. Ela nos faz entrar em contato com nossos valores, gostos, preferências, desejos, sonhos. Pois muitas vezes (ou algumas vezes) deixamos de vivê-los para viver o desejo, o sonho, o valor do outro, ou, até mesmo, os valores da relação a dois, mas nunca a nossa. Sendo assim, esse momento de solidão é como uma descida ao nosso eu mais profundo. Uma viagem tentando nos reconectar com o sistema solar, aqui fora. Viagem onde nós tentamos REconhecer a nós mesmos. Pois, há momentos que somos desconhecidos de nós mesmos. Estranho? Mas é possível e é verdade.
Muitas vezes dizemos algo, pensamos algo, porém tudo isso está muito distante, incoerente, diferente dos nossos sentimentos. Daí não sabermos se o que sentimos pertence a nós ou ao outro. Daí a importância dessa solidão frutífera para acessar nossos verdadeiros sentimentos em relação a tudo, em relação à vida.
Isso me fez lembrar Carl Rogers e a Terapia Centrada na Pessoa onde se trabalha, também, o acesso aos sentimentos do cliente. Trabalha-se a coerência dos sentimentos com a vida do cliente.
Para ilustrar citarei um excerto de Rogers em Tornar-se pessoa (1961): “Descobri que sou mais eficaz quando me posso ouvir a mim mesmo aceitando-me, e quando posso ser eu mesmo”. Sendo assim, esses momentos de solidões são momentos únicos, ricos de acesso ao nosso verdadeiro eu. Onde, muitas vezes, este eu estava escondido, embotado, disfarçado. Sim, precisamos descer às profundezas de nós mesmos para encontrarmos, acessarmos nossa verdadeira essência, nossos verdadeiros valores e até mesmo nossos verdadeiros medos. Para que possamos emergir mais coerentes, mais humanos, mas Fábio, Renato, Flávia, Priscila, enfim mais real e mais humano!!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Homem: possibilidades e transcendência.

Depois de alguns textos falando de psicologia à luz da psicanálise, chegou a hora de falar à luz da fenomenologia. Para isso, usarei como fonte o livro Enfoque fenomenológico da Personalidade de Yolanda Cintrão Forghieri.
Forghieri cita Binswanger (1967) e diz: “O ser humano, ao contrário, embora em sua vida sofra limitações de seu ambiente e de sua corporeidade, e necessite adaptar-se a eles, possui a capacidade de transcendê-los por meio da consciência que tem das situações que vivencia”.
Sendo assim, o mundo circundante é determinado para o animal e para o homem. Porém, o homem pode transcendê-lo e o outro, não. E a transcendência vem da consciência das situações vividas (passado), que está vivenciando (presentes) e das que ainda poderá vivenciar (futuro).
E qual seria então o “mundo” do homem? O mundo onde ele pudesse viver, crescer, transcender? A autora em questão nos diz: “O ‘mundo’ humano é aquele que diz respeito ao encontro e convivência da pessoa com os seus semelhantes. A relação do homem com outros seres humanos é fundamental em sua existência desde o nascimento ele encontra-se em situações que incluem à presença de alguém. O existir é originalmente ser-com o outro”.
Tudo bem que Freud já dizia que uma das maiores dificuldades do homem é o relacionar-se com o outro. Sartre já disse que o “outro é um inferno”. E Nietzsche disse que “é difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil”. Contudo, Forghieri nos alerta para a relação com o outro.
Sendo assim, é interessante notar que o homem na relação com o mundo circundante não encontra resposta, para seus questionamentos, mas com o mundo humano, encontra. Por isso, Forghieri diz: “só posso saber quem sou como ser humano, convivendo com meus semelhantes”.
E pensar que dia a dia o homem moderno se torna mais individualista, mais isolado, mais egocêntrico. Então, nessa cultura individualista, como poderei atualizar minhas potencialidades? Como poderei ser eu mesmo e ao mesmo tempo estar em constante modificação, evolução?
Usarei as palavras da autora em questão que diz: “são as situações que a pessoa vai vivendo, relacionando-se com o mundo circundante e com as pessoas, que lhe vão possibilitando atualizar as suas potencialidades, oferecendo-lhe as condições necessárias para ir descobrindo e reconhecendo quem é”.
Dessa forma, o meu relacionar com o outro e com o mundo, atualizam minhas potencialidades. Em contrapartida, ter relações de dependência e pura “submissão” ao outro não me fazem atualizar minhas potencialidades humanas e me igualam ao mundo circundante.
Refletindo sobre isso, fico pensando como é doloroso o relacionar-se com o outro, mas também como é rico. Tendo em vista que só com o contato com os meus, com os semelhantes é que me verei, me (re)conhecerei e atualizarei minhas potências.
Acredito que por isso a relação, o vínculo terapêutico seja tão importante para o cliente, pois ali ele está (e estará por um bom tempo) relacionando-se com outro ser humano como ele, e isso farão ambos atualizarem suas potencialidades.

terça-feira, 29 de março de 2011

Somos seres faltosos!

Segundo Rodrigues (2008), citando Bauman (1999), diz que “o desejo não deseja satisfação. Ao contrário, o desejo deseja o desejo. Isso porque o desejo nos dá a sensação de ‘vida’”.
Viviane Mosé, à luz das idéias de Nietzsche, diz que a base da civilização ocidental é a negação do sofrimento, da dor. Porém eliminar o sofrimento é eliminar o impulso para crescermos, para amadurecermos. Ao perder alguma coisa você ganha o impulso de construir algo. A vida se move a partir de ganho e perda. Se você tirar a perda, você tirará o homem do devir, da transformação.
Cada um de nós conhece exemplos de pessoas que são vencedoras, lutadoras. Mas que para isso, precisaram passar por dores e perdas. Nós mesmos somos esses vencedores!
Fico pensando como seria chato se tivéssemos tudo o que sonhamos e/ou queremos. (Um sonho normal na nossa infância). Imagino aquele menino pobre, que não teve muita chance na vida, mas que se agarrou a chance dos estudos. Com isso conseguiu ingressar numa universidade federal, consegui uma bolsa de estágio, conseguiu participar de um projeto na faculdade. Bendita falta que fez ele sair de si! Doeu, mas ele cresceu. E mais, não se deixou levar pela dor ou pela falta. As palavras de Nasio (2007) ilustra bem isso: “... equivale a declarar que ao longo da nossa existência estaremos, felizmente, em estado de carência, vazio sempre futuro que atiça o desejo, é sinônimo de vida”.
Lembro-me também que quanto aos relacionamentos humanos, às vezes escuto frases do tipo: “Quero alguém que me complete”. Sinto frustrar o(a) dono(a) dessa frase, pois se somos seres faltosos, nós nunca seremos completados, ninguém nos completará. Acredito que a frase ficará melhor redita da seguinte forma: “Quero alguém que me complemente”. E recorro novamente a Nasio (2007) que dia: “porque habitualmente atribuímos ao nosso parceiro o poder da satisfazer os nossos desejos e nos dar prazer. Vivemos na ilusão, em parte verificada, de que ele nos dá mais do que nos priva”.
Por isso, não esqueçamos que incompletos, faltosos sempre seremos. Mas esse ato – involuntário ou não, inconsciente ou não – de negar a dor, a perda é algo comum da nossa cultura ocidental.

terça-feira, 15 de março de 2011

Fim do amor: decepção com o outro ou comigo mesmo? (Parte 2)

Na verdade, gostaria de escrever sobre outro assunto. No entanto, ao reler o post anterior, percebi não ter conseguido expressar o que realmente queria. Pois me “perdi” no meio do caminho e fugi um pouco do tema. Sendo assim, resolvi retomar o tema.
Se amamos um ser misturado, (Amamos a pessoa pelo que ela é, por aquela pessoa com quem convivemos, mas também amamos pela fantasia inconsciente que fazemos e temos dessa pessoa) então a dor da separação, do fim do amor é a dor de separar-se da fantasia que me unia ao outro. Pois segundo Nasio (2007), “a existência fantasiada do outro é mais importante do que a existência exterior”. Sendo assim, a separação é uma dor “egoísta”, pois perdemos uma parte de nós, uma parte do outro, mas que é fantasiada por mim e que me constituía. E Nasio (2007) ainda dirá: “o que dói não é perder o ser amado, mas continuar a amá-lo mais do que nunca, mesmo sabendo-o irremediavelmente perdido”. E esse amor ao objeto perdido, é uma defesa do “eu” a perda real do amado, por isso o “eu” atrela-se à imagem do objeto perdido.
E se imaginamos o amado segundo nossos afetos e valores, perder esse amado é perder uma parte de nós. Então, perder o amado é uma decepção comigo mesmo. Pois Nasio (2007) dirá corroborando tudo isso: “o eleito é, antes de tudo, uma fantasia que nos habita (...) objetos das nossas projeções imaginárias”.
E para arrematar, o mesmo autor diz: “Não é a ausência do outro que dói, são os efeitos em mim dessa ausência. (...) Sofro porque a força do meu desejo fica privada de uma de suas fontes, que era o corpo do amado”.
Por que falar nisso tudo? Ora se é “Falando que a gente se entende”, muito justo falar sobre perdas de amor. Amor que pode ser de amigo, de irmão, de namoro, de homem, de mulher, de trabalho, de estudo. Enfim, todos nós sofremos perdas e precisamos pensar melhor sobre elas, sobre as dores que elas nos causam. E, assim, elaborar melhor nossos lutos. Pois, “Falando a gente se entende”.
13/03/2011
Fonte: Livro A dor de amar - J.D. Nasio, Ed.Zahar, 2007.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Fim do amor: decepção com o outro ou comigo mesmo?

Você já parou para perceber que quando amamos alguém sempre amamos
um ser misturado? Sim, misturado. Amamos a pessoa pelo que ela é, por
aquela pessoa com quem convivemos, mas também amamos pela fantasia
inconsciente que fazemos e temos dessa pessoa. E aí, inconscientemente,
imaginamos o nosso amado segundo nossos valores inconscientes, nossos
desejos inconscientes. Mas eis que surge uma questão: quando fico chateado
com a pessoa amada, isso se deve porque ela fez algo “errado” ou porque ela
não correspondeu aos meus valores e desejos inconscientes?

Acredito que o que há de mais belo, rico no mundo é o relacionamento
humano, porém também é o que há de mais difícil. (Lembrei-me de Sartre ao
dizer que “o inferno são os outros”
.) É interessante notarmos que a pessoa
amada além de se relacionar com uma pessoa de gostos, história, ritmos de
vida diferentes tem que lidar com as fantasias desse outro que é imposta sobre
ela.

Não quero crucificar um lado da moeda apenas, pois a pessoa amada (como
ser humano que é) também ama a projeção dela em nós. Então, o que
devemos fazer? Eis a hora da palavra! A hora do “Falando a gente se
entende”.
Pois bem, uma possibilidade de solução nesse caso seria sermos
verdadeiros. Sim, verdadeiros! Assumir que estou com raiva do outro, mas
assumir que na verdade o motivo dessa raiva começa em mim que o fantasiei.
Eu que esperei demais dele, idealizei. Eis o mote crucial, queremos pessoas
reais para amar ou pessoas ideais? Sinto dizer-lhes, mas pessoal ideal só em
vaga de seleção de trabalho, mas fora isso, nos relacionamos com seres reais.
É interessante perceber que muitas pessoas ficam sozinhas em busca do
parceiro ideal e esquecem que o “ideal” pode ser aquele parceiro real que está
ao seu lado. (Isso não é enredo de comédia romântica de filme norte-
americano, mas uma verdade!). Porém, voltemos ao assunto de sermos
sinceros conosco. Um exemplo simples, talvez, nos ajude a entender a nossa
fantasia acerca do amado e da necessidade de sinceridade. Às vezes dizemos
que o outro está chato e por isso não queremos conversar. E o outro envereda
pelo caminho pessoal e a briga vira uma imensa bola de neve. Não seria mais
sensato se assumíssemos nossa verdade e mudássemos o tom do diálogo?
Por exemplo, “você, para mim, está parecendo que está aborrecido, um pouco
chato hoje, é verdade?”
. Convenhamos que isso é bem diferente de
dizermos “Você está chato hoje!” Ou, “eu não estou bem hoje, peguei um
trânsito infernal, briguei com o chefe e acho que estou chateado
”. Rogers já
falara sobre isso ao discorrer sobre a congruência, coerência. Ele dizia que
quando somos coerentes conosco, indubitavelmente nós levamos o outro a ser
coerente também, a abandonar as máscaras. Pois bem, sendo assim, nada
como sermos sinceros conosco e com o outro e sabermos que “Falando a
gente se entende”.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Falando a gente se entende.

Neste blog escreverei textos sobre psicologia, relacionamentos humanos, alegrias, dores, dúvidas etc., enfim, tudo o que toca a psicologia e ao homem. Até mesmo os assuntos mais “estranhos” como perversão, psicose, neurose. E a palavra estranho aparece aqui com aspas, à luz da célebre frase de Freud: “Nada do que é humano me é estranho”. O título “Falando a gente se entende” tem com premissa que a “cura se dá pela palavra”. Pois à medida que falamos, escrevemos, expomos nossas ideias estamos fazendo nossa catarse e dando espaço para a vida fluir no nosso interior, no nosso mundo psíquico.
Sobre o poder da catarse na cura de nossas doenças, citarei um trecho do que Breuer (Josef Breuer – médico e a quem Freud se referia como “o mais estimado dos amigos e o mais amado dos homens”.) fala a respeito da cura pela palavra:
Grande foi minha surpresa quando, em seguida a uma dessas verbalizações acidentais e espontâneas da hipnose da tarde, vi desaparecer pela primeira vez um distúrbio que durava muito tempo. Atravessávamos nesse verão um período canicular e a paciente sofria muito com o calor, súbito, sem que ela pudesse explicar, não conseguia mais beber nenhum líquido. Pegou na mão um copo de água com vontade de beber, mas, assim que o levou aos lábios repeliu-o, tal qual uma hidrofóbica. (...) Ao fim de aproximadamente seis semanas, pôs-se um belo dia a falar-me, durante a hipnose, de sua dama de companhia, uma inglesa de quem ela não gostava, e contou, com todos os sinais de repugnância, que, tendo entrado, em uma ocasião, no quarto dessa senhora, vira-a dando de beber, em um copo, a seu cãozinho, um animal horripilante. Por polidez, nada disse. Depois de ter energicamente expressado a cólera contida, pediu para beber engoliu sem dificuldade uma grande quantidade de água e saiu de seu estado hipnótico, com o copo na boca. Depois disso, o distúrbio desapareceu para sempre”.
Ressalto, aqui não farei hipnose com ninguém. Mas o trecho acima serve como enfatizador da nossa necessidade de falar, desabafar, externar, pois “Falando a gente se entende”.Tudo bem que quem mais falará aqui serei eu através dos textos postados. Sendo assim, a cura começará em mim primeiro, é verdade. No entanto, desejo que os textos sirvam de esclarecimentos, reflexões, indagações, questionamentos, trocas, partilhas. E, dessa forma, estarei aberto aos comentários e ao crescimento com as partilhas aqui ocorridas ou, partilhas começadas por esse meio, ou mesmo pelo meu e-mail lucafilho@hotmail.com.
Fonte: Revista Viver Mente e cérebro – coleção Memória da Psicanálise nº 1 – Freud – Editora Duetto, São Paulo, 2003.
09/03/2011